sábado, 31 de maio de 2008

O Processo de Produção


A produção do projeto teve início com a análise do tema através dos pontos levantados por Jay Doblin, considerados os mais relevantes para o desenvolvimento da base conceitual de um projeto de design. O que serviu para dar início à metodologia do painel semântico, que consiste em trabalhar com palavras colocadas sobre um painel, formando grupos, hierarquias e explorando as características principais da produção.

FIGURA: Construção do Painel Semântico montado em cojunto pelo grupo
FONTE: Fotograma tirada por Marina Sanatana em sala de aula

O esquema proposto por Doblin procura mostrar a relevância do tema para artes, humanidades, tecnologia e ciência, buscando apontar suas características com maior clareza e explorar as qualidades. Durante essa análise colocamos em questão a importância do cinema surrealista enquanto quebra de paradigmas e regras desenvolvendo novas linguagens, enquanto contribuição a estudos da psicanálise, busca pelo afloramento do lado desconhecido do ser humano, e o despertar de novas sensações e reações no público.

Além disso, as obras possuem forte caráter crítico, denunciam a falsidade da sociedade burguesa que tenta manter a imagem a qualquer custo e ignora os reais problemas sociais como um todo. Abordam a igreja católica como um trava, como imposição de valores e criação de regras. Sendo que esse valores morais e religiosos reprimem os sentimentos e desejos humanos, criando uma máscara, a qual o homem se apresenta perante a sociedade.

Percebemos que os filmes tinham características muito semelhantes, e que algumas se destacavam mais ou menos em cada um deles, e através da síntese dos pontos levantados chegamos a conceitos comuns aos dois filmes, morte, religião, liberdade e desejo.

O passo seguinte foi o levantamento iconográfico referente aos conceitos apontados. Expomos as imagens e observamos que cada grupo possuía uma característica mais evidente. E após uma seleção das mesmas, vimos que a liberdade tratava de ambientes abertos e elementos soltos pelo ar contra a gravidade. A morte, uma aparência mais escura e curiosa com elementos como insetos. A religião representada por elementos dourados, auréolas e luz vinda do céu fazendo referência ao divino. O desejo uma grande quantidade de imagens com planos mais fechados, mãos e formas femininas. O desejo é representado nos filmes por olhares e pelo toque, é algo que não se concretiza, e ao definir o desejo de forma distinta entre universal e particular, vimos que o que se aplica de forma universal é a definição de busca incessante que move o homem e nunca se satisfaz, enquanto o objeto de desejo em si é o lado particular e individual. Nesse ponto, definimos que o desejo ganharia uma importância diferente dos outros conceitos no projeto.

Assim, foi dividido em três, o desejo prometido (religião), o desejo construído (liberdade), e o desejo reprimido (repressão), sendo que a morte se tornou algo que de qualquer forma constrói um novo ponto de vista. E assim estabelecemos os principais conceitos que abordamos no projeto.

A identidade visual foi construída através de fotografia e ilustração, sendo esta ultima a de maior destaque.

FIGURA: Exemplo de aplicação da ilustração
FONTE: Desenho de
Marina Santana e montagem de André Nagae


Criamos uma linguagem com base nas obras de Salvador Dali, que trazem a distorção humana, a subversão do espaço e as várias interpretações para uma mesma imagem, e construímos um ambiente subversivo numa linguagem onírica.

FIGURA: Ilustração
FONTE: Desenho de Marina Santana

O desenho de forma gestual cria a impressão de algo que está sendo construído, de uma idéia, pensamento ou sonho que está nascendo.

De acordo com os conceitos definidos no painel semântico, criamos quatro segmentos distintos, que compartilham a mesma identidade visual, o mesmo tipo de composições, mas se referem a elementos visuais diferentes. Como a liberdade que se define por ambientes cada vez mais abertos e com mais profundidade, a repressão entra debaixo da terra e se afunda cada vez mais e com menos luz, vemos texturas de pedra e terra criando uma sensação de claustrofobia, enquanto a religião apresenta ambientes contidos, com vitrais, luz de velas e imagens subversivas mais discretas, que muitas vezes não são percebidas em um primeiro momento.

A partir disso criamos a nossa peça gráfica com base na associação livre e nos jogos de criação coletiva, que consiste num kit de 20 cartas, que busca instigar a criatividade com imagens de autoria do grupo, e um espaço para escrever no verso de forma que possamos apagar e utilizar novamente. A idéia é que o usuário associe algo à imagem da carta e crie uma breve história. Pode ser utilizado por duas à cinco pessoas, e as histórias são somadas formando uma só.

Para a peça online criamos um site com três caminhos diferentes que se entrelaçam, relativos à religião, liberdade e repressão, e são concluídos com a morte que busca criar algo novo e apontar um novo olhar. Esses três caminhos se tornam respostas ao usuário que navega de acordo com o seu desejo. Assim, ao interagir, inconscientemente, o usuário se direciona a áreas bem distintas dentro do site.

Aplicamos a tipografia de forma bem integrada à interatividade, fazendo com que o interator navegue através da formação de frases, além de outras interatividades mais livres inseridas dentro dos conceitos.

Utilizamos um sistema de tags, para que os usuários possam associar palavras à elementos importantes das interfaces, com base nas associações livres. Além disso, também utilizamos o recurso de login no site, para que ao final de cada ciclo, ou seja, quando o usuário entra em alguma interface de morte, o nome deste fique gravado na interface, criando uma espécie de cemitério.

Para o som utilizamos musicas de John Cage, especialmente o piano preparado, representando a liberdade de criação, a quebra de regras e paradigmas da música erudita, que pode ser considerada elitista, assim como aponta o filme ao mostrar um violino sendo chutado pelas ruas. Para a religião utilizamos o segundo movimento de Carmina Burana, uma obra de Carl Orff que consiste na adaptação de textos profanos criando uma cantata, formato mais utilizado na composição da música sacra, assim acrescentando mais uma forma de subversão da igreja. Na repressão, editamos e remixamos as músicas de John Cage e Carl Orff, criando uma terceira composição, caracterizada como algo atrofiado, que não se desenvolve completamente.




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